terça-feira, 15 de dezembro de 2009
segunda-feira, 30 de novembro de 2009
Um belíssimo post de Everardo Norões.

Remember Rachel Corrie (1979-2003)
nenhum arado move a terra
com a ira do trator
(¿sem o sopro da ternura
quem sorve o dom da semente?)
há dias vi as fotos no jornal:
sozinho percorri a casa,
subi escadas,
abri janelas,
folheei o corpo encantado dos livros:
mas não acreditei no meu rosto
ao olhar o espelho.
perguntei
a mim mesmo:
¿que substância teria faltado
à tabela periódica?
¿que desencontro de átomos
deslocara nossas constelações?
nenhum arado move a terra
com a ira do trator
(¿sem o sopro da ternura
quem sorve o dom da semente?)
há dias vi as fotos no jornal:
sozinho percorri a casa,
subi escadas,
abri janelas,
folheei o corpo encantado dos livros:
mas não acreditei no meu rosto
ao olhar o espelho.
perguntei
a mim mesmo:
¿que substância teria faltado
à tabela periódica?
¿que desencontro de átomos
deslocara nossas constelações?
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P.s.: Rachel Corrie era uma jovem pacifista dos Estados Unidos. Foi esmagada por um trator, quando protestava contra a destruição de casas de palestinos pelo Exército de Israel.
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domingo, 22 de novembro de 2009
domingo, 8 de novembro de 2009
VIETNÃ. Um poema de Wislawa Szymborska

Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.
WISLAWA SZYMBORSKA, nascida em Kórkik, Polônia, 2 de Julho de 1923, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Ver perfil em http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet265.htm. O poema acima foi transcrito de http://justme-anordinarygirl.blogspot.com/2009/05/maes.html. Desconheço quem traduziu para o português.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.
WISLAWA SZYMBORSKA, nascida em Kórkik, Polônia, 2 de Julho de 1923, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Ver perfil em http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet265.htm. O poema acima foi transcrito de http://justme-anordinarygirl.blogspot.com/2009/05/maes.html. Desconheço quem traduziu para o português.
Imagem: edição de Helena Martinelli.
quarta-feira, 4 de novembro de 2009
Rosácea (para meus amores: Virgílio, Vítor e Ana Clara)

Aflição e trava.
Nenhum exercício, tudo pára.
Nenhum exercício, tudo pára.
Não sei se sou alegre ou triste.
A quem afasto, a quem me uno.
A quem afasto, a quem me uno.
Só posso escrever em cega vertigem?
Se o Senhor toma em Suas mãos o meu destino, paraliso?
Se o Senhor toma em Suas mãos o meu destino, paraliso?
Abrem-se comportas.
Tenho receio de contar meus segredos enquanto durmo.
Estou visceral e a escrita quer desatar-se.
Estou visceral e a escrita quer desatar-se.
(Dizia o poeta de Ribeirão da Mata*, em Minas:
Ribeirão da Mata, ata-me.
Desata-me.)
Ribeirão da Mata, ata-me.
Desata-me.)
Gratuito e sintético, meu ser.
Amoroso, a áurea cor de rosa.
Amoroso, a áurea cor de rosa.
A rosácea.
Rosa de ventos e afetos.
Rosa de ventos e afetos.
E como me doem os afetos.
O meu amor, ternura e cuidado.
O meu amor, ternura e cuidado.
Meus cuidados, meu bem-querer.
Os filhos e suas trilhas abertas, riscando certeza
Os filhos e suas trilhas abertas, riscando certeza
em mundo incerto.
Ainda respiro por eles, suspiro, amor, apreensão.
Ainda respiro por eles, suspiro, amor, apreensão.
Deixá-los ir, quando ainda desejo guardá-los e protegê-los,
ainda velar por eles adormecidos.
ainda velar por eles adormecidos.
Desvelo.
Os pais, profunda raiz.
Nem tentáculos.
Elos.
Nem tentáculos.
Elos.
Laços.
Terra fértil que me alimenta até hoje.
Terra fértil que me alimenta até hoje.
Silencio diante do último verso (comportas abertas):
pois é tão bela a vida,
verdadeiramente.
*Adair Carvalhais Júnior, http://ventosdesencontrados.blogspot.com/
Foto: Rosácea da Sainte-Chapelle, em Paris (Wikipedia).
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Impressões

Perdi os meus escritos por um mês.
Perdi-me a mim mesma do escrever, há meses.
Perdi-me a mim mesma do escrever, há meses.
A poesia envia-me sinais,
raio de luz em sótão empoeirado,
imagem de vida em mundo cristalizado e imóvel.
imagem de vida em mundo cristalizado e imóvel.
Pergunto-me sobre o estranho ingrediente,
este que me paralisa,
seca as minhas palavras.
Perco a centelha, mesmo a de uma poesia de impressões
seca as minhas palavras.
Perco a centelha, mesmo a de uma poesia de impressões
– como em Natal, o poema da areia, da luz, do recorte de mar que nos leva a Ponta Negra.
A aderência à areia. E era tudo.
A aderência à areia. E era tudo.
Pés descalços na areia,
olhos fechados,
ao sol e ao vento, e a luz do sol, e a luz do mar,
a água, a água.
E vinham poemas, com a brisa.
E vinham poemas, com a brisa.
Assim passavam, e eu só.
O silêncio nutre,
sem palavras.
Foto de MVítor.
quinta-feira, 15 de outubro de 2009
No silêncio do corpo

O campo é um centauro, dizia o professor. Uma encruzilhada hermenêutica que construo mas me incorpora definitivamente em seu intransponível horizonte de equívocos. A análise é um centauro. Eu sou um centauro, às vezes sem existência real, só mitologia, torrentes de palavras neste momento.
Contemplo minhas patas e garras, a cauda do dragão no átrio da Igreja. Seu incenso. Que me açoita e revela o meu eu, minha pertença, o mim. Algo muito fundo.
Do profundo do tempo me amaste, Senhor.
Eu vã, eu louca e ausente, mas ali estou e sou eu, e não sou, fora desse átrio, origem e destino, nenhuma dúvida jamais nesse lugar. Do profundo do tempo esse sintoma me toma e define. Asma como eu. Ana como eu. Que me trava quando contra mim para que eu talvez caminhe em meu favor, mas pelo avesso, e me silencia, me paralisa quando preciso. E como preciso, desesperadamente.
O mundo contra mim, o fluxo contra mim, o eu ignoto remoto no pátio da Igreja, no vão da porta, no átrio.
A Nave.
Asma, unha cravada na pele da alma.
Nenhum sangue.
Desenho de Ígor Souza.
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