domingo, 8 de novembro de 2009

VIETNÃ. Um poema de Wislawa Szymborska




Mulher, como te chamas? - Não sei.
Quando nasceste, tua origem? - Não sei.
Por que cavaste um buraco na terra? - Não sei.
Há quanto tempo estás aqui escondida? - Não sei.
Por que mordeste o meu anular? - Não sei.
Sabes, não te faremos mal nenhum. - Não sei.
De que lado estás? - Não sei.
É tempo de guerra, tens de escolher. - Não sei.
Existe ainda a tua aldeia? - Não sei.
E estas criancas, são tuas? - Sim.

WISLAWA SZYMBORSKA, nascida em Kórkik, Polônia, 2 de Julho de 1923, foi Prêmio Nobel de Literatura em 1996. Ver perfil em http://www.algumapoesia.com.br/poesia3/poesianet265.htm. O poema acima foi transcrito de http://justme-anordinarygirl.blogspot.com/2009/05/maes.html. Desconheço quem traduziu para o português.
Imagem: edição de Helena Martinelli.

quarta-feira, 4 de novembro de 2009

Rosácea (para meus amores: Virgílio, Vítor e Ana Clara)


Aflição e trava.
Nenhum exercício, tudo pára.
Não sei se sou alegre ou triste.
A quem afasto, a quem me uno.

Só posso escrever em cega vertigem?
Se o Senhor toma em Suas mãos o meu destino, paraliso?

Abrem-se comportas.
Tenho receio de contar meus segredos enquanto durmo.
Estou visceral e a escrita quer desatar-se.

(Dizia o poeta de Ribeirão da Mata*, em Minas:
Ribeirão da Mata, ata-me.
Desata-me.)

Gratuito e sintético, meu ser.
Amoroso, a áurea cor de rosa.
A rosácea.
Rosa de ventos e afetos.

E como me doem os afetos.
O meu amor, ternura e cuidado.
Meus cuidados, meu bem-querer.
Os filhos e suas trilhas abertas, riscando certeza
em mundo incerto.
Ainda respiro por eles, suspiro, amor, apreensão.

Deixá-los ir, quando ainda desejo guardá-los e protegê-los,
ainda velar por eles adormecidos.
Desvelo.

Os pais, profunda raiz.
Nem tentáculos.
Elos.
Laços.
Terra fértil que me alimenta até hoje.

Silencio diante do último verso (comportas abertas):
pois é tão bela a vida,
verdadeiramente.

Foto: Rosácea da Sainte-Chapelle, em Paris (Wikipedia).

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Impressões




Perdi os meus escritos por um mês.
Perdi-me a mim mesma do escrever, há meses.

A poesia envia-me sinais,
raio de luz em sótão empoeirado,
imagem de vida em mundo cristalizado e imóvel.

Pergunto-me sobre o estranho ingrediente,
este que me paralisa,
seca as minhas palavras.

Perco a centelha, mesmo a de uma poesia de impressões
– como em Natal, o poema da areia, da luz, do recorte de mar que nos leva a Ponta Negra.
A aderência à areia. E era tudo.


Pés descalços na areia,
olhos fechados,
ao sol e ao vento, e a luz do sol, e a luz do mar,
a água, a água.
E vinham poemas, com a brisa.
Assim passavam, e eu só.

O silêncio nutre,
sem palavras.


Foto de MVítor.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

No silêncio do corpo




O campo é um centauro, dizia o professor. Uma encruzilhada hermenêutica que construo mas me incorpora definitivamente em seu intransponível horizonte de equívocos. A análise é um centauro. Eu sou um centauro, às vezes sem existência real, só mitologia, torrentes de palavras neste momento.

Contemplo minhas patas e garras, a cauda do dragão no átrio da Igreja. Seu incenso. Que me açoita e revela o meu eu, minha pertença, o mim. Algo muito fundo.

Do profundo do tempo me amaste, Senhor.

Eu vã, eu louca e ausente, mas ali estou e sou eu, e não sou, fora desse átrio, origem e destino, nenhuma dúvida jamais nesse lugar. Do profundo do tempo esse sintoma me toma e define. Asma como eu. Ana como eu. Que me trava quando contra mim para que eu talvez caminhe em meu favor, mas pelo avesso, e me silencia, me paralisa quando preciso. E como preciso, desesperadamente.

O mundo contra mim, o fluxo contra mim, o eu ignoto remoto no pátio da Igreja, no vão da porta, no átrio.
A Nave.

Asma, unha cravada na pele da alma.

Nenhum sangue.
Desenho de Ígor Souza.

segunda-feira, 12 de outubro de 2009

Um poema de Hilda Hilst

Aflição de ser eu e não ser outra.
Aflição de não ser, amor, aquela
Que muitas filhas te deu, casou donzela
E à noite se prepara e se adivinha
Objeto de amor, atenta e bela.
Aflição de não ser a grande ilha
Que te retém e não te desespera.
(A noite como fera se avizinha).

Aflição de ser água em meio à terra
E ter a face conturbada e móvel.
E a um só tempo múltipla e imóvel.
Não saber se se ausenta ou se te espera.
Aflição de te amar, se te comove.
E sendo água, amor, querer ser terra.

Hilda Hilst. Do Amor. Poema no. 40

domingo, 11 de outubro de 2009

As memórias inventadas da infância de Manoel de Barros: "Manoel por Manoel".


Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.

Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.

Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era os meninos e as árvores.

Manoel de Barros. Memórias Inventadas. A Terceira Infância.

Menino. Foto de MVìtor.

sábado, 10 de outubro de 2009

Uma antiga viagem e seu silêncio



Fui, vi, voltei. Mas o meu coração em sobressalto ainda quer explodir... Como um oco no centro de mim, onde sintonizo sem disfarce a dor, quando me atinge. Voltei assim da viagem: tudo ecoa, há um oco onde cabe a dor. E há tempo e reconhecimento para isso, agora sei o lugar onde dói, entre coração e diafragma. Essa dor que é a de existir mesmo, dos confrontos e dos limites, e é também a dor desse mundo convulsionado onde vivemos e onde meus filhos vivem, ainda alheios mas vulneráveis. Há um portão fechado no fim do túnel, há muitos acidentes e tensão, e no meio de tudo sonho que quero falar por mim, que é essa a minha questão, essa a minha conquista, sanada a ilusão do migrante, essa de não se estar perdido ainda por lá, nos esquecidos do lugar de onde se veio. Falar por mim, como sou, através desse estar no mundo.


Paredes. Desenho de Ígor Souza (http://www.fotolog.com.br/igorsouza/)